sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Boa demais para você - por Bruna Vieira

O texto de hoje é de autoria da blogueira Bruna Vieira que escreve para o blog Depois dos Quinze. E olhem que eu preciso curtir muito o autor pra colocar texto que não é meu aqui no blog! haha

Depois de muito relutar, acabei comprando o livro A Menina Que Colecionava Borboletas que, apesar de um tanto "juvenil", acabou me cativando por ter palavras simples e ao mesmo tempo me transmitir muita sinceridade. Eu marquei 4 textos que li e reli e esse é um deles... espero que gostem :)


"Certa vez me disseram que eu era boa demais para você. Colocaram meu amor a leilão e apostaram que logo apareceria alguém melhor. Um cara que realmente se importasse ao invés de alguém que fica semanas sem telefonar e manda uma mensagem no meio da madrugada, dias depois do último encontro, dizendo que está com saudade. Como se essa palavra fosse a senha do meu coração. Disseram que eu deveria conhecer pessoas novas. Entrar num curso de gastronomia, viajar para Europa nas férias ou ocupar os meus domingos com idas ao parque. Nunca fiz nada disso, pois tive certeza que jamais de encontraria nesses lugares. Passei pelo caminho mais longo só para talvez te ver casualmente saindo da faculdade, fui todas as sextas do último mês naquela balada que nos conhecemos e aos domingos, escrevi e apaguei mensagens que nunca foram enviadas ao som daquela música. Você nem deve saber o nome da nossa música.

Eu sei que o problema não é comigo. É você e esse medo de se prender a alguém e gostar da sensação. Prefere continuar caindo ao invés de descobrir se o paraquedas funciona. Queria que soubesse, mas queria que soubesse antes que seja tarde, nem todo mundo é como o seu pai. Os fantasmas mais assustadores são àqueles que nós mesmos criamos. Já te disse, e repito, sua vida não deve ser uma consequência dos erros que ele cometeu quando você ainda nem podia sentar no banco da frente do carro. A única herança que é sua por direito, além desses lindos olhos azuis, que às vezes me parecem verdes, é o lugar onde você e sua irmã vivem. Agora está escuro lá. Talvez frio. Mas logo vocês descobrem como se liga a luz.

Fico pensando, ninguém te conhece de verdade. Se você os desse essa oportunidade. Certamente, veriam o que eu vejo. Sentiram o que eu sinto. Eles acham que é só mais um caso perdido e vai acabar como todos os outros garotos. Enxergando o mundo na mesma perspectiva até o último dia. Esse não é o seu final. De longe, percebi dia desses enquanto pegava o metrô, todo mundo é só um ponto solitário. Ao seu lado, no entanto, somos dois. Quem sabe, um dia, três. O mistério das reticências combinam com a gente.

Sinto falta das nossas conversas sobre o que já não falo com ninguém. Dos seus desabafos bem no meio da melhor parte do filme. Parece bobagem, mas era bom ter um espaço no sofá da sua sala. Um dia fomos grandes amigos. Os conselhos que deu já me levaram para diferentes lugares. Até que seu ombro passou a ser meu travesseiro mais macio. Eu me apaixonei perdidamente por aquele cara que sabia sempre o que dizer. O problema é que deixamos o amor nascer em um labirinto e agora, nossa antiga amizade, não consegue encontrar a saída. Os sinalizadores estão queimando tudo o que sobrou e você continua olhando para o outro lado.

Essa é a última vez. Antes de me despedir e apertar o botão sem volta, que leva estas palavras até você, aviso. Eu não quero te consertar. Nunca quis. Quero é provar que podemos ser exatamente assim, cheios de defeitos e sem nenhuma garantia. Invisíveis para o resto mundo, mas o suficiente um para o outro."

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Não é você, sou eu

É isso mesmo que você leu. Tô aqui pra te falar o mais clichê dos clichês em términos de relacionamentos: não é você, sou eu. Foi tudo minha culpa. Eu que te olhei diferente e esperei por algo que no fundo sabia que não viria. Fui eu que me interessei por cada palavra sua e disse as minhas na esperança de que você se importasse. Eu que te apoiei em cada decisão certa e recriminei as que julguei erradas. Eu, e penas eu, que senti meu coração fervilhar com a expectativa dos nossos "dias seguintes". Dias esses que eu esperei mais gestos e palavras especiais da sua parte. Sou eu que estou esperando até hoje. Sabe... não foi você. Fui eu que insisti em tocar nos assuntos que você adora e te observar falando deles como se fossem especialmente pra mim. E não eram. Eu que quis aprofundar a análise da letra daquela música que você nem gostava tanto assim, só pra te fazer gostar como eu gostava e só pra [tentar] te fazer lembrar de mim quando ouvisse ela. Não é você não, cara. Sou eu que durmo e acordo pensando em uma maneira de te achar por aí. De topar com você na rua ou na frequência com que eu toco a campainha da sua casa só pra não parecer que tô desesperada pra te ver. Eu que senti demais sem parecer que não sentia absolutamente nada. Talvez, se eu tivesse deixado o meu sentimento claro desde o início, eu até poderia colocar um pouquinho dessa culpa em você. Mas definitivamente não é você, sou eu. Eu que tento te convencer a ser melhor e te olho com deboche quando diz coisas que não me agradam. Eu que, nesse vai-e-vem de acontecimentos superficiais, me aprofundei nos "livros" que diziam e ensinavam sobre você e como te entender. Livros inúteis. Eu devia ter aproveitado todo esse sentimento e essa vontade de te conhecer e já entender de cara que não era pra ser. Não era pra ser nada disso que eu tava achando. Não vai ser nada além dessa realidade que tô enfrentando. E agora eu sei que faço o certo ao me dar conta de que, todo esse tempo, "não é você, sou eu". Sou eu que deixo você entrar todos os dias na residência da minha alma e decorar tudo do seu jeito. Sou eu que me contento em me apaixonar por cada coisa que você faz e ficar proporcionalmente frustrada com as coisas que deixa de fazer por mim. Sei que vai ficar repetitivo, mas de qualquer forma, vou dizer: não foi você que construiu e não é você que tá terminando nada. Não é você que vai ter o trabalho de "desinventar" essa história mal escrita, sou eu. 


E eu realmente não sei de onde vou tirar forças pra isso. Só tenho certeza, a partir de hoje, que será necessário fazê-lo.  

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Cão-guia

Essa noite eu tive um sonho esquisito. Era sonho e era pesadelo ao mesmo tempo. Não deu muito pra distinguir porque os acontecimentos se alternavam descompassadamente lá naquele lugar onde as coisas se passam na surdina da noite, enquanto a gente dorme. Comecei a andar por uma rua conhecida, chorando. Na verdade não sei se era chuva ou era choro. Tem sonho que fica tudo nublado e eu nunca sei o que é. Mas era triste de qualquer maneira, não dá pra negar. Andava e corria, sempre com esse fôlego que me falta quando quero fazer algo com pressa. Cheguei na escada que me é conhecida em vida real e que tantas vezes desci que já não sei se a maioria eu era triste ou era feliz. Acho que era feliz. Mas no começo do sonho era tudo tão triste que compensou todos os momentos escuros que nunca passei ali. Cheguei na porta
e apertei a companhia. O coração pulsante e o rosto úmido. Sentia uma agonia, uma vontade de pedir pra acordar, que eu até esqueci que tenho e levo a chave daquele lugar. Ouvi o barulho da maçaneta e vi a silhueta que também me é conhecida em vida real. Mas a porta demorou a se abrir um pouco mais do que o normal. Quando abriu, lá estava ele. Meu amigo de sempre, que tanto me acolhe, não sorriu ao me ver. Aliás, por não me ver, me revelava de modo estranhamente incompatível, o motivo de tanta tristeza. Gustavo estava cego. Sem o deixar perguntar "quem é", eu o abracei e passei a distinguir o choro da chuva. Ali, dentro da sala, os únicos espaços com goteiras eram os meus olhos. Ele sussurrou algo que me fez rir e ta aí a parte do sonho que eu não distingui. Disse que era pra ficar tranquila, que aquilo não passava de bobeira minha e, em um surto de gargalhada, nos demos conta de coisas que não faríamos mais. Ver filmes, ler poesias, nos olharmos com recriminação ou com alguma brincadeira que só nós conhecemos, ver a lua, brincar com as nuvens. Eu não entendi, sabe? Foi triste e engraçado ao mesmo tempo. Nos sentamos e ele contava, em breves relances, um pouco de sua raiva por um tal "erro médico". Dizia que a vida o ironizou por querer ser um deles mas que, de agora em diante, teria que se esforçar muito para continuar. Eu ria, mas me sentia incomodada com o fato dele não me olhar. Ou de olhar pro vazio. Eu sabia que de alguma forma as coisas mudariam, mas continuava com a estranha indagação sobre o bom e o ruim... tentando conciliar o nosso destoado riso com um desafio que decidi enfrentar: seria para ele, o olhar que o faltava. E queria aquilo em todos os sentidos possíveis: aprenderia o braille que tanto achei confuso, o ajudaria com o "Bastão de Hoover" e quem sabe até treinaríamos um cão-guia. Sobre o fato do cão ele riu e lembrou ser o nome de uma música que gosto bastante. E dentre tanta aflição, risos e um sonho de muita confusão, entendi que dali pra frente eu deveria desempenhar um papel que os amigos fazem sem perceber: eu o ajudaria a enxergar o mundo com os olhos do coração. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Nutella e cautela nunca são demais

Confesso que tenho uma pontinha de inveja
De gente que é feliz em qualquer lugar
Que acha diversão em qualquer canto e em qualquer situação
Pessoas que não importa onde ou quando
Fazem o possível para se sentirem confortáveis
Amam praia e se deliciam com o inverno
Amam flores
Mas acham o Outono uma estação maravilhosa
Gente que se ama e ama aos outros sem nenhuma cautela
Gente que ama Nutella
Confesso também que me encanto facilmente
Por pessoas que sabem se impor
E que não mudam sua opinião de nenhuma maneira
Gente que entra em qualquer brincadeira
Pula corda
Pula  muro
Pula preconceitos
Gente que não disfarça defeitos
Eu admito que sim
Tenho uma queda por homens bobos
Homens que não se perdem da infância
E que se dão o direito de fazer pirraça
Em qualquer circunstância
Admiro também as mulheres
Aquelas que não perdem a graça
Que se maquiam...
Mas que no fundo, nada disfarça:
A amor, a boa vontade
E a competência de dizer sempre a verdade
Mulheres com vaidade
Eu tenho um certo apreço sim
Tenho convicção de que existem pessoas assim
E um dia, quem sabe
Quero aprender a viver,
Seja lá em qual momento for,
Como todas essas pessoas de valor.


domingo, 3 de agosto de 2014

Carta à um homofóbico

Caro,

Eu não sei quem é você, mas seja você quem for, eu sei que não merece ser tratado como costuma tratar os outros. Como eu sei a maneira que você trata as pessoas? Eu apenas senti jorrar nas minhas costas a cerveja que você jogou nos meus amigos que estavam se beijando do meu lado, ontem na festa, e só por esse ato eu já entendi parte da sua personalidade. Da festa você deve lembrar, né? Era uma formatura. E eu não sei se você era convidado ou formando, mas eu espero sinceramente que um dia você possa curtir uma festa tão bonita como aquela de uma maneira melhor: se preocupando apenas com a sua diversão e não se importando tanto (e de forma tão negativa) com a vida alheia. Você é homofóbico, cara (ou moça). E sabe o que isso significa? Que só você (e apenas você) vai sofrer com isso quando se der conta do quão idiota é pensar dessa forma. Por que, meu caro, espero que você saiba que as pessoas não vão deixar de se apaixonar por outras do mesmo sexo que elas só porque pessoas como você existem e só porque levaram um banho de cerveja em uma festa enquanto se beijavam. E ontem, quando percebi o seu ato, não fiquei triste de forma alguma pelos meus amigos (apesar de me aborrecer por termos nos molhado e por eles sofrerem as consequências da sua mente atrofiada), fiquei triste por você e por saber que pensamentos como os seus ainda existem por aí. Saiba que o amor e o desejo não deixarão de existir. E infelizmente o ódio e o preconceito também não. Mas se tem uma coisa que eu aprendi é que ódio acaba com amor... e olha que legal: o amor também acaba com o ódio. Sendo assim, eu desejo muito, muito, muito amor na sua vida. Que você possa rever todos os seus conceitos com calma e se dar conta de que o livre arbítrio significa amar como bem se entende e não odiar como bem se convêm. Que opções e opiniões existem de formas inimagináveis e que não somos obrigados a isso mas podemos sim, fazer das nossas as melhores possíveis. Espero que você, com toda a sua heterossexualidade que deve exibir com triunfo, coloque filhos no mundo e os crie com tanto amor quanto os filhos de casais homossexuais. Que seus filhos aprendam o significado da palavra respeito e que tenham opiniões melhores e atitudes mais nobres do que as suas. Que seus filhos representem uma geração não com menos preconceito, mas com bem mais amor no coração.

Eu poderia continuar esse recado falando um pouco mais sobre hipocrisia e discriminação ou escolher uma forma melhor e falar sobre felicidade e compaixão. Mas por enquanto vai ficar só no amor mesmo que já tá bom. Não tenho tempo pra perder tentando explicar para você as coisas que pessoas de mentes e corações abertos já sabem desde que chegaram ao mundo.

Um abraço de alguém que deseja paz na sociedade que divide (querendo ou não) com você.