segunda-feira, 26 de maio de 2014

Recordação


“Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado”, ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: “Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado”.

Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: “Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás… Fazer o que, né? Se Deus quis assim…”.

Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo e consegui encaixar um “Sinto muito”. “Obrigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela.” “Cê não tem nenhuma?” “Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela. Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?” “Isso.”

“Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar.” “E aí?!” “Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: Entra’. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação’.”

Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas 50 pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. “Olha a data aí no cantinho, embaixo.” “1º de junho de 1988?” “Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo 25 anos, hoje. Ali do lado da banca, tá bom pra você?”


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Escrito nas estrelas

"She works at hot topic
His heart microscopic
She thinks that it's love but to him it's sex"


Dizem por aí que nada na vida é por acaso. Mas é estranho pensar que a história de Amanda e Marcos não estava prevista. Não haviam dados suficientes no horóscopo, se pudessem traçar um mapa astral as constelações confundiriam qualquer bússola e bem na época Mãe Dináh já havia partido dessa pra uma melhor. Ninguém nunca escreveu um livro que contasse coisa parecida e nem mesmo revistas para adolescentes colocariam em seus "testes" uma possibilidade dessas. Aconteceu há duas semanas atrás e, a meu ver, não tornará a acontecer novamente. Infelizmente. Foi uma história curta, sem dramas, sem coadjuvante, sem cenário, sem cachê. Uma história de fazer inveja em qualquer um que se atreveu a sofrer por amor durante anos e também àqueles que vivem histórias de uma noite. Aliás, está aí um detalhe que não posso deixar passar despercebido: Amanda sofre há anos por uma pessoa e Marcos sempre vive histórias de uma noite. Então, por que diabos eles se olharam aquele dia, no trabalho, e pensaram absolutamente a mesma coisa?! O psicólogo de Amanda havia dito para não se precipitar e a melhor amiga de Marcos aconselhava que ele procurasse urgente por um romance duradouro. Mas nenhum deles pensou nos conselhos. Naquele momento, parados no fim do turno e sozinhos no escritório, só pensavam que poderia sim haver uma história de amor entre eles, mas que fosse confortável aos dois. Amanda decidiu que não sofreria, e Marcos, por sua vez, decidiu que não se apaixonaria. Perfeito. Ele se levantou, foi até a mesa dela, se sentou e disse, sem nenhuma introdução: 
_ Ouviu o que eu disse hoje, na hora do almoço?
_ Você foi transferido para outra cidade - respondeu ela sem nenhum questionamento
_ Fico só mais duas semanas. Quer sair comigo? - disse ele meio rápido demais
_ Ah, sim, claro. Aonde quer ir? - respondeu ela na mesma velocidade
_ Não sei, talvez ali, no restaurante da esquina.
Dito isso, se levantaram. Ele dobrou o braço para deixar que o dela se acomodasse no vão, e partiram para o encontro. Conversam por horas à fio, até que ele a roubou um beijo. Foi um beijo bom, sereno e sem muita baba. Não foi daqueles de filme, mas Luana sentiu que também não era qualquer beijo bobo. Encaixaram-se ali por alguns minutos e, pensando novamente em conjunto, decidiram que não falariam sobre o assunto. Tantas outras preocupações e pensamentos dentro de cada um, que falar sobre aquilo demandaria tempo e distração. Por isso decidiram viver essa história com tempo limitado de uma maneira leve e sutil, sem "DR's" ou exigências. Viveram, apenas, aquele romance improvisado, imprevisto e ligeiro. E descobriram em um curto tempo que a vida precisa ser aproveitada sem muitas complicações. Porque, querendo ou não, um romance "escrito nas estrelas" sempre tem chateação.



sábado, 17 de maio de 2014

Subterrâneo

"Eu quero te olhar de um lugar diferente
Eu quero a chave, a chave da porta da frente"

Eu sei que um dia vai acontecer. Um dia vamos nos ver longe uns dos outros. Já aconteceu uma vez em minha vida e pode/vai acontecer de novo. Eu me verei longe dos meus amigos. Acordarei em um belo dia ensolarado e terei vontade de telefonar para dizer que gostaria de tomar um café com os pães acumulados, que nós deveríamos fazer um almoço daqueles bem gordurosos, ver clipes antigos com os quais nos divertíamos quando tínhamos nossos quinze anos e depois alguns filmes de terror, e no fim do dia, quando estivermos bem cansados de olhar um para a cara do outro, pedir algumas cervejas e rir bastante de assuntos completamente aleatórios. Vou sentir falta principalmente das risadas, mas garanto que quando me der vontade de chorar, também me lembrarei de vocês. Porque ontem eu tive muita vontade de chorar quando saí do trabalho, mas aí eu resolvi me refugiar ao lado de vocês e passou. Ficou tudo bem. Quem me dera se eu pudesse ter para sempre um lugar para fugir. Um lugar para voltar a ser criança. Para ser um pouco máscula. Um lugar para ter uma escova de dente e uma cama à disposição. 
Eu realmente não sei muito bem qual a intensão do destino quando fez aquela porta se abrir pra mim. 
Logo eu, tão acomodada com a sensação se incompletude, me vi completa com vocês. 
Mas um dia vai acontecer: me verei longe de todo esse afago, compreensão e completude. Porém, quero logo deixar claro à cada um de vocês que não haverá distância para diminuir a gratidão pelos olhares reconfortantes, pelas palavras de animação, aprendizados úteis e inúteis, sorrisos e abraços. 
Quando houver distância, serei um pouco triste sim, mas por um dia ter encontrado amigos tão sinceros, me sentirei contente. E poderei contar à todos que se apresentarem em minha vida daqui pra frente que de uma casa que não era minha, eu já tive a chave. A chave da porta da frente. 

"Amizade é a semente que eu rego, o amuleto que eu carrego e alimenta minha crença
De que a força dessa cumplicidade
É o que faz a diferença".

sexta-feira, 16 de maio de 2014

I Promise

"You took my hand, you showed me how
You promised me you'd be around
Uh huh...That's right..."


Já reparou que a humanidade está cheia de promessas não cumpridas? As pessoas se revoltam porque políticos não cumprem promessas, mas não cumprem se quer a promessa de começar a dieta na segunda. Prometem que se vier mais grana mês que vem, vão ajudar um asilo mas não alimentam os próprios parentes idosos que necessitam de atenção. Prometem paz, mas compram brigas bestas com o vizinho. Prometem educação aos filhos, mas não dizem "bom dia" no elevador. Prometem amor, mas se vão.
É assim e sempre vai ser. Nós nem nos damos conta da quantidade infinita de promessas não cumpridas.
"Promete que vai me escrever?" "Prometo!"
"Promete que vai ficar aqui até eu dormir?" "Prometo."
"Promete que não vai acontecer de novo?" "Prometo."
"Prometo amar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza..."  Putz, quanta besteira.

Daí, algumas pessoas passam a prometer que não prometerão nada sem que seja possível cumprir. Bobagem. Está mais do que na hora de nos darmos conta de que não damos conta de cumprir algumas promessas.
Me lembro de prometer que te daria um abraço todos os dias nos quais você se sentisse triste e, cara, não dá pra acreditar que hoje eu passo horas sonhando com abraços nos dias em que me sinto assim.
Prometi que não falaria palavão, mas me arrisco em milhões de mal dizeres quando queimo o arroz ou perco um ônibus.
Prometi que, depois daquele desastre, não amaria ninguém. E amei mais do que pude imaginar.

Prometer menos e fazer mais: eis minha proposta.


domingo, 11 de maio de 2014

Não fazia sentido

_ Tudo bem, eu sei que já se passaram alguns anos, que você está em outra a séculos, que nossas vidas mudaram completamente, que nossos planos nunca vão bater de novo como batiam antes e que você nunca vai me olhar novamente daquele jeitinho que me olhava... mas já que estamos aqui, posso te fazer uma pergunta?
_ Pode sim - respondi já sabendo o que viria em seguida.
_ Por que você terminou comigo? Sabe, nós nunca tínhamos brigado nem nada... fazíamos planos, cartas, declarações, e de repente você veio com aquela história de que queria um tempo. Foi confuso à beça. 
_ Olha, eu sei que foi confuso. E não foi só pra você, acredite. Porém, já que estamos aqui, vou tentar explicar. Prometo que vou tentar. Mas se eu não conseguir, peço que não guarde essa mágoa. 
_ Não guardo mágoa. Só guardo essa dúvida mesmo. E dúvida é diferente de mágoa.
_ Oquei. E preciso deixar claro também que você foi uma pessoa muito importante. Muito mesmo. Eu enfrentei muitos medos por você e descobri sentimentos que até hoje não consegui encontrar algo que se assemelhe. Caramba, não consigo e nunca vou conseguir. Inocência, entende? Fazia bem pra alma até.
_ Está tão claro quanto sempre esteve da minha parte. Prossiga.
_ Eu te amava muito, cara. E antes que você faça aquela expressão de dúvida que com certeza eu reconhecerei, digo que sei o que o amor significa. Significa que você quer ter a pessoa sempre por perto, cuidar, agradar, sorrir. Significa também que não é um sentimento superficial e que abraçar alguém que amamos nos leva à outra dimensão. Eu sei o que é o amor. 
_ Eu também tô ligado. Mas, se me amava, se me queria sempre por perto, porque fez aquilo?
_ Quando paro pra pensar no que fiz, eu simplesmente chego à conclusão de que eu não queria você perto das minhas dúvidas e da minha amargura. Eu sou amargurada demais e tenho dúvidas sobre o que quero ser e o que devo sentir. O amor não era uma dúvida, mas foi o motivo que me fez desistir. Se não tivesse acabado naquela época, nós possivelmente estaríamos juntos até hoje. E isso me faz sentir uma dor terrível de ter te deixado. Mas ao mesmo tempo penso que se vivesse comigo hoje, seria você à terminar o relacionamento. Eu sou um poço de incertezas.
_ Não sei como seria se ainda estivéssemos juntos e ainda não faz sentido algum essa sua explicação. 
_ Você acabou de colocar sentido. O sentido é que não faria sentido continuarmos juntos. O amor pode estar intacto, mas a vida nos leva à crer que mais cedo ou mais tarde, um outro sentimento há de nos consumir: a dúvida.
_ Então você continue aí com essa dúvida que eu vou viver as minhas certezas. E quer um conselho? Não se prende muito à ela, ou vai acabar sozinha.
_ Já me prendi e é tarde demais para tal conselho. Mas agradeço e, por último, se não for incômodo aos seus ouvidos, peço as desculpas que nunca pedi. Me desculpe por te decepcionar.
_ Aceito as desculpas e por último, se não for incômodo aos seus ouvidos, digo o que nunca te disse. Seja feliz.
Dito isso, pegou as alças da mala preta e entrou no ônibus que ia rumo a São Paulo. Um pequeno pássaro que passava tentou me convencer de que eu devia pedi-lo para ficar. Mas não fazia sentido aquele pedido e ele partiu para nunca mais, ou quem sabe, para um dia em que as coisas se esclareçam de verdade.