domingo, 6 de abril de 2014

Try to be better

"Eu devia sorrir mais; abraçar meus pais; viajar o mundo e socializar;
Nunca reclamar, só agradecer; fácil de falar, difícil fazer."

Eu sinto que dá para sermos melhores do que isso. Não dá? Tipo deixar o rancor de lado só um minutinho e tentar cumprimentar o vizinho. 
Ou fazer questão de sorrir no elevador, mesmo de mal humor.
Dá pra ser melhor sim. Ouvir o amigo com calma, mesmo que atrasado pra aula. 
Rir de um mosquito em meio à uma segunda-feira de trabalho infinito. 
Agradecer pelo almoço da cantina. 
Tentar se acostumar com a nova rotina. 
Conhecer pessoas novas! Por que não? 
Mandar um e-mail (ou uma carta) para a amiga que achava chata. 
Dizer um "bom dia" ou um "muito obrigado" por opção, esperando um dia bom ou agradecendo de coração. 
Ou quem sabe podemos ser mais sinceros? Não mentir só pra agradar, sabe? 
"Seu almoço estava salgado. Tente acertar no próximo." ou 
"Com essa roupa você parece um otário, que tal a outra calça do armário?"
Eu sei que é só fazer um esforço. Ser pintura colorida e deixar de ser esboço.
Agradar um amigo sem gastar dinheiro, "Ei, te trouxe uma florzinha roubada do canteiro!"
Alimentar um cãozinho. Ou mesmo fazer um carinho. 
Ser melhor no ônibus: não cochilar quando ver um idoso entrar.
Ser melhor do trabalho: ajudar um colega. Ser solidário.
Ser melhor com a família: sorrir para a mãe, ligar para o pai, não prender demais a filha.
Dá pra ser melhor sim! Deixar um pouco de reclamar e dormir e passar a acordar e sorrir. 
Abraçar! Esquecer-se de chorar. Orar. Amar.
Eu sinto que dá.





sexta-feira, 4 de abril de 2014

História de um azarado

Lindomar era um cara de muito azar. A começar pelo nome. Lindomar. Dá pra acreditar? Rima até com a palavra "azar"! 
Sempre foi alvo de piadas na escola: "olha lá o lindinho...".
E por falar em escola: que azar! Era só entrar pra começar. Quebrava cadeiras ao sentar.
A luz queimava e perdiam ali uns quinze minutos só pra trocar. O vidro de cola estourava.
"Olha aqui, professora! O Lindomar já está a se sujar!" - gritavam os colegas aos risos.
No colegial chegava atrasado e o inspetor não deixava entrar. Voltava pra casa (aos tropeços) e a mãe punha-se à chorar: "Coitado do Lindomar!" 
Quebrava os presentes de Natal logo que começava a usar. Não era desastre, era azar.
Era um tal de bola que vinha furada pra cá, carrinho sem roda pra lá, boneco com defeito de fábrica...
E a época do vestibular?! Perdia os livros de estudar, esquecia o que acontecia na aula, não lembrava de copiar. Nem no dia que passou o azar abandonou. 
_ Cadê os documentos para a matrícula, Lindomar?
_ Ih, mãe! Esqueci de xerocar!
A época da faculdade foi confusa. Entrava na sala errada todo dia. Não entendia o que acontecia. 
Morou sozinho e teve que aprender a se virar, mas o arroz queimava, o chuveiro também. Na fila do restaurante, sempre em sua frente tinha um casal de amantes. Que constrangedor. Mandava roupas para lavar e voltavam furadas. E se lavava em casa: manchadas.
Lindomar precisou então, definitivamente, aprender a lidar com seu fiel companheiro.
"Há quem nasça cego e até sem membros. Há quem não tenha o que comer. Já eu, tenho azar." - pensava, tentando se acostumar.



Foi num dia de azar que conheceu Sara. Na fila do banco. Depois de duas horas de conversa serrada, descobriu que estava na fila errada. "Moço, a fila para empréstimos é lá na entrada." - disse a funcionária, exaltada. 
Pegou o número do telefone. Ligou e deu fora de área. Marcou um encontro quando conseguiu, mas o restaurante estava fechado. O trânsito engarrafou e tiveram seu encontro ali mesmo, no carro parado. 
Ela sorriu até ele se apaixonar. Depois de alguns meses pediu pra casar.
Até no dia do casamento foi confusão. O padre passou mal do coração. 
Mas houve substituição.
Casaram-se então, Lindomar, Sara e o Azar. 
Na hora do sim, ele não conseguiu segurar: "Quanta sorte eu tive ao te encontrar!" 



quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Sofá

"A gente é bem maior do que qualquer drama; Que entra em cartaz e sai em duas semanas..."

Não vem com esse papo de durão. Todo mundo pensa em alguém antes de dormir. Todos temos diálogos com o travesseiro naquela hora da noite em que batem os arrependimentos.
E não vem com essa história fajuta de que você faz tudo o que tem vontade e não se arrepende, porque todo mundo se arrepende de algo que não fez.
Ontem mesmo, a Cláudia deitou arrependida por não ter abraçado ele no momento que deu vontade; por não ter beijado no rosto e dito: "olha aí, como eu te conheço..." ou qualquer frase aleatória que o fizesse rir.
Dia desses eu vi um filme com a seguinte moral: 
"Todos nós fazemos escolhas na vida. O difícil é conviver com elas". 
Vou contar aqui, e espero que não levem a mal: sinto que pra ela é quase insuportável conviver com algumas escolhas que faz. Sobe a rua olhando pra trás. Será que volta? Será que deveria... não. E segue. Chega em casa e vai direto ao tal diálogo com o travesseiro. Coitado. Aquele lá de pena de ganso já está quase cobrando as sessões de terapia.

Quando a encontro, o caso que mais gosto de ouvir é o do sofá.


Ela tem um sofá já velho e surrado onde deita todos os dias depois do almoço. 
O fato é que chegou em casa em uma terça-feira e acabou pegando no sono. 
Sonhou com ele, claro. Era o óbvio mais óbvio de seus presságios antes de dormir (afinal, todo mundo pensa em alguém antes de dormir). Sonhou que estava ali mesmo, no sofá. Acordada. De frente pra ele.
Ele sorria como só sorri em dias de bom humor com um belo açaí na mão e conversavam sobre aqueles antigos dramas do relacionamento. Riram até a barriga doer relembrando o dia em que se perderam em um passeio na cidade e só voltaram pra casa com a ajuda de um velho hippie sujo que oferecia drogas de dez em dez segundos. Riram do começo de tudo, de quando não tinham coragem nem de se olhar. Mas se gostavam porque eram muito parecidos. E tinham discussões bestas sobre músicas e tipos de comida.
O sonho passou de vagar, e Cláudia conta que ele não tirava os olhos dela. Conta também que no sonho os tempos eram outros. Eles estavam já maduros, formados e com empregos estáveis. E tava tudo certo.Tudo no  lugar. Tudo perfeito. E principalmente: não haviam arrependimentos. "Sabe assim, aquela dorzinha que fica na frase não dita, entalada no pescoço?" - dizia ela, sorrindo. 

O sofá se tornou uma metáfora pra mim. Uma metáfora das acomodações da vida. 
Cláudia sempre lembra do caso como se aquilo só pudesse acontecer em um sonho. Por vezes, tenho pena dela. Não diz nada do que sente e vai embora sempre, já com hora marcada para a terapia com o travesseiro. E acha graça em sonhos. Graça em desculpas para deixar pra depois a frase não dita. Não sei nem se tem coragem de dizer um "sim".  
Mas olha, pra ser bem sincera, eu também não sou muito de dizer o que penso. Me arrependo por coisas tolas e tenho um travesseiro de ouvido cansado. 
Só acho que deveríamos começar a deixar de lado alguns sofás da vida. Acomodar-se não é, nem de longe, a melhor maneira de não se arrepender. 




domingo, 30 de março de 2014

Pra você, Quênia.

Ontem vi um casal brigando na rua.

_ Pega sua chave, Quênia, não vou dormir com você.
_ Não vou pegar. Não aceito isso - choramingou ela.
_ Vai sim. - ele disse jogando a chave no rosto dela.
Me afastei até não conseguir ouvir mais no momento em que ela começou a chorar. Foi uma cena e tanto.



Querida Quênia,
Sei que não tenho nada a ver com briga de casal no meio da rua, que não te conheço, que não sou psicóloga de ninguém, e muito menos escrevo coluna de revista de fofoca que dá "dicas de como ser uma boa esposa e companheira sexual" mas veja bem, pequena, o que mesmo você não aceitou na noite passada?
Foi um fato já ocorrido? Então vou te contar, se é que você quer saber, que fatos não voltam no tempo para ocorrerem de novo e de modo diferente. Encare isso, aceite. 
Foi alguma coisa que você não fez? Aceite o fato dele não acreditar em você. Quem não deve não teme, e a verdade sempre vem à tona.
Não aceitou o término do namoro? Aceite que as coisas acabam, querida. Segue sua vida. Como disse um amigo meu, "tem gente demais nesse mundo".
Não aceitou seja lá o que tiver acontecido e ficou lá, chorando na rua o resto na noite? Fez papel de idiota então, Quênia. E com aquele decote e aquele short, sozinha, poderia ter sido estuprada (brinks gente, só pra descontrair e citar o tema atual das galáxias). Ninguém chora assim, no meio da rua, queridinha. 
A discussão acabou e cê foi chorar em casa? Fez papel de idiota de novo, amiga. E dessa vez foi pra você mesma. Chora não. 

Quênia, minha jovem, desculpe os meus conselhos distorcidos, é que eu preciso reparar em briga de casal na rua pra desabafar sobre as coisas que eu não tenho coragem de aceitar também. Espero que você esteja bem hoje. Saia, vai tomar uma cerveja. Sorria. E principalmente, tente fazer melhor da próxima vez. A vida é muito curta pra ficarmos rejeitando as coisas que acontecem nela. E por mais que eu saiba disso, eu rejeito algumas coisas também, viu?

Beijo da sua mais nova amiga. 



sábado, 29 de março de 2014

A amizade acaba

Uma crônica de Antônio Prata, remixada e modificada pela autora.
Nota: a crônica original é "O Amor Acaba", mas autora acredita, que assim como o amor, a amizade também pode acabar. E que isso seja natural. 


Às vezes, a amizade acabaAssim foi e assim será. Numa Quarta-Feira de Cinzas, num sábado de carnaval. A amizade se perde, entre o rebolado de três passistas, debaixo da saia da baiana, o bumbo ecoando as batidas que já não vêm do coração. A amizade encolhe, anoréxica, suicida-se de melancolia; acaba num átimo, de infarto - "tão jovem!", dirão -, ou aos poucos, pingando, em lenta e imperceptível hemorragia, pálida amizade; morre de velhice, de obesidade, de preguiça, entre cartas de amor e contas de luz de 2007: a amizade embolora, cria fungosamarela; acaba entre um sorriso e um soluço, no meio do filme, no cinema, no movimento do riso que busca o outro na poltrona, mas riso já não há; acaba no papel de bala amassado, metido no bolso: lá se vai ela, tão frágil, a amizade; acaba no mesmo ombro de sempre, na sala, num sorriso triste, na distância entre dois mundos diferentes, num abraço estéril, cadê a amizade que estava aqui? O gato comeu, o ladrão levou, o anel que tu me destes era vidro e se quebrou, acabou em vaidade, a amizade que tu me tinhas, cadê, meu Deus, a amizade? A amizade escorre, escapa, dissolve, seca, evapora-se de nós, pobres criaturas; a amizade acaba nas férias, na praia, no sol, em segundas-feiras cinzentas no escritório, em piscinas e cinzeiros, em abraços e ofensas, a amizade acaba com ódio, acaba mesmo com amor, nem tanto, um tanto só, de amor; acaba sozinha, culpada, acaba em conjunto, triste; esquece-se a amizade, como uma música da infância, uma tarde em que morremos de rir, uma cidade inteira onde já estivemos e já não está mais dentro de nós; onde foi parar a amizade? Foi-se embora pra Pasárgada, onde é amiga do rei (de nós, certamente, já não é), fugiu para Maracangalha (com Amália?), aposentou-se no beleléu, foi pro inferno, pro limbo, pro céu ou, quem sabe, reside agora num baú, num sótão, numa rua calma em Santa Rita do Passa Quatro; a amizade não escolhe o momento de terminar, vai-se no susto de um pôr-do-sol interrompido por uma buzina, no primeiro ônibus da manhã, é soterrada pela pilha de jornais atirados diante da porta, vai embora com a borra do café; Em todos lugares a amizade acaba; a qualquer hora a amizade acaba; por qualquer motivo a amizade acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer... a amizade acaba.